22/01/18

estupidez altamente qualificada

Há um grau de estupidez que não é fácil atingir sem pelo menos um mestrado. Numa discussão online disse "é necessário" (em estrangeiro, claro), o que precipitou um chorrilho de comentários sobre as implicações meta-éticas de dizer "é necessário". Não quis deixar o homem sozinho, de maneira que apresentei contra-argumentos tão estúpidos como os argumentos dele. E fomos estúpidos para sempre.

19/01/18

fluidez & decadência



Em desportos de combate fala-se muito em fluidez de movimento. O movimento mais eficiente tende a ser o mais elegante, embora certos excessos sejam permitidos. O excesso de elegância revela, dizem, algo de decadente: uma beleza sem sentido. Confesso que nunca vi beleza sem sentido e já vi muita coisa útil sem sentido nenhum.

18/01/18

sobre os fins (limites) do coiso, sim, isso...

Só precisava de me lembrar de metade das coisas que leio para parecer que leio o dobro, pensei em tempos. Agora só quero lembrar-me dos livros que gostei de ler e, mesmo assim, não é fácil. 

Li há seis (?) meses dois livros que me agradaram: The Way of All FleshMiddlemarch. Só me lembro de gostar mais do Middlemarch, porque me pareceu mais simpático nas partes satíricas, há mais empatia. Tenho, de resto, cada vez menos paciência para ler livros puramente satíricos, tem de ser muito curto e muito engraçado para funcionar.

17/01/18

artefactos culturais e o que fazer com eles


Costumava andar com livros debaixo do braço, apesar de ter uma mochila. Gostava de ler e queria que toda a gente soubesse. Lembrei-me disto porque ouvi um tipo, num café, a falar da vida cultural de Buenos Aires como quem anda com livros debaixo do braço, apesar de ter uma mochila. É embaraçoso mas também é normal.

16/01/18

sobre a sinceridade



Both the actor and the martyr are judged by how true they are to what they say – rather than by the truth of what they say.

Faisal Devji

Já fui uma pessoa sincera, mas quase nunca dizia a verdade. Quando mentia tinha a certeza de que não dizia a verdade. Agora, quando tento dizer a verdade, não tenho certeza nenhuma. Parecia mais sincero a mentir.

15/01/18

"o fascismo tem um problema de relações públicas"


Uma vez disse a um amigo vagamente marxista (digo vagamente, porque ele só conhecia vagamente Marx) que eu era um fascista não praticante; depois, expliquei-lhe, com enorme deleite, que o fascismo nunca fora verdadeiramente aplicado, com alguns exemplos do que não é fascismo; ainda tomei aquela atitude de quem quer parecer razoável dizendo coisas absurdas: "mas está claro que não é fácil implementar um regime fascista perfeito, por isso considero-me relutantemente democrata". Esta conversa teve o mérito de acabar com futuras conversas sobre política, que geralmente só me irritam quando não estão a aborrecer-me. 

12/01/18

dança kuduro


A dandy doesn't concern himself with time, he dances through time...

Um gajo no youtube

Olho muito para o relógio, marca Slow, e o tempo passa rápido. Sinto uma pressão no peito, que não sei se é tabaco ou ansiedade. Aquele personagem ridículo de Sebald, que não usa relógio, cada vez me parece menos ridículo. Enquanto penso no tempo que tenho para fazer isto e aquilo, acabo por não fazer isto nem aquilo.

11/01/18

palinódia geral


Tenho reparado que uso, em textos expositivos, "enfim" com uma frequência preocupante; acho que quero dar a ideia de que chego a conclusões, mas também uso para palavra muitas vezes como uma expressão de resignação: "enfim, faço o que posso". Faço o que posso para chegar a conclusões e, em certos dias, posso pouco. 

Em conversas com mulheres uso muito a palavra "interessante", que é uma maneira muito desajeitada de disfarçar a falta de interesse (meu e delas). Em Zurique, instalei o Tinder, mais para falar alemão do que para os encontros. Alguns encontros mais tarde estava a pensar em a) casar-me com uma mulher que não soubesse o que é yoga; b) tornar-me monge. Chego a Portugal muito decidido e, dois meses depois, namoro uma professora de yoga há um mês e meio.

Enfim.

10/01/18

modificando para o mesmo, uma reflexão sobre moda


Comprei uns óculos redondos porque  me ficavam bem. Estava tudo muito bem até ir a um concerto de música, dizem, alternativa, dizem; lá, reparei que muita gente usava óculos semelhantes e que pareciam todos pessoas que iam dar uma palestra, não requisitada, sobre Foucault, ou sacar uma varinha e começar a mandar expelliarmus a torto e a direito. Ninguém é imune às modas, mas felizmente as modas são passageiras e, daqui a dois anos, vou estar confortavelmente fora de moda.

09/01/18

sem rima nem razão

Tenho feito muitas coisas, ou antes, poucas coisas que parecem muitas para mim. Ontem, por exemplo, desenhei uma catedral numa agenda vermelha (um dos melhores livros vermelhos desde Mao), e não ficou mal porque poderia ter ficado pior.


Li, outro exemplo, um pouco d'O Vermelho e o Negro, um livro que já discuti tanto e com tanta propriedade que quase parece que o estou a reler. Às vezes falo sobre um livro no café e só quando chego a casa é que me lembro que não o li. Acontece.

Passei, mais outro exemplo,  os olhos pela imprensa americana; a propósito de um artigo sobre sensitivity readers, lembrei-me de uma frase encantadora de Joseph de Maistre: ”(…) il ne peut y avoir dans l´univers rien de plus calme, de plus circonspect, de plus humain par nature que le tribunal de l´Inquisition.”. 

Enfim, conseguem ver que levo uma vida exemplar, ou, pelo menos, cheia de exemplos.

09/04/17

He (Kumarbi) bit his "knees" and his manhood went down into his inside. When it lodged there (and) when Kumarbi had swallowed Anu's manhood, he rejoiced and laughed.

Anu turned back to him, to Kumarbi he began to speak:

"Thou rejoicest over thine inside, because thou hast swallowed my manhood.

"Rejoice not over thine inside! In thine inside I have planted a heavy burden. Firstly I have impregnated thee with the noble Storm-god. Secondly I have impregnated thee with the river Tigris, not to be endured. Thirdly I have impregnated thee with the noble Tasmisus. Three dreadful gods have I planted in thy belly as seed. Thou shalt go and end by striking the rocks of thine own mountain with thy head!"

05/02/17

(...)
And my good deeds grow smaller
and smaller. But
the interpretations around them have grown huge, as in
an obscure passage of the Talmud
where the text takes up less and less of the page
and Rashi and the other commentators
close in on it from every side.

Yehuda Amichai, For My Birthday